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O bom proveito da solidão

Eu nunca tinha morado sozinha. Sou a caçula de 3 irmãos, então quando eu cheguei, a casa já estava cheia. Aos dezoito anos saí de casa pra fazer trabalho voluntário e de cara já dividi um quarto com mais 7 meninas. Durante mais alguns anos segui assim. Nesse período minha mãe se mudou para um apartamento menor e desfez meu quarto. Quando fui fazer faculdade no Rio, morei  com minhas primas e depois dividi apartamento com duas amigas. Depois me casei, depois me separei. Então há três anos eu moro sozinha. Observo a rotina dos meus amigos que ainda moram com os pais ou voltaram a morar com eles. Observo os casados e os que têm filhos. Todos eles precisam dedicar tempo às pessoas, alguns porque querem e outros porque são obrigados. Por vezes invejo suas vidas, mas de um jeito bom. Mas também aprendi a valorizar a solidão. A solidão não precisa ser triste, ela pode ser muito proveitosa. Do silêncio ao som de uma música no volume máximo, a liberdade de fazer o que quer. Tempo sobrando, ...

O luto

Dia desses conversava com um amigo que perdeu uma pessoa da família sobre o luto. O luto pertence somente a nós mesmos. Os outros podem até tentar dimensionar nossa dor, mas nunca conseguem. A minha avó faleceu às vésperas do Natal. Tínhamos acabado de ir ao cartório emitir sua certidão de óbito, quando lembramos que não tínhamos uma roupa para enterrá-la. Fomos a uma loja na esperança de encontr ar algo digno dela. A roupa estava escolhida e quando fui efetuar o pagamento, uma música natalina era a trilha sonora. Foi quando a atendente me perguntou se aquela roupa era pra presente. Não era, aquilo era qualquer coisa, menos um presente. Foi quando eu pensei que se eu pudesse teria parado o Natal por causa do meu luto. "Vivenciem meu luto comigo!", eu queria gritar, "Alguém pára essa droga de música!". Mas não fiz isso, nem era possível exigir que o mundo ao redor sentisse a minha dor, porque o luto é uma dor só de quem sente. Não se transmite luto, não se divide l...

Não fale com estranhos

Eu preciso conversar menos por aí. Parei o carro no centro de Curitiba em um estacionamento perto do teatro Guaíra. Foi a segunda vez que deixei meu carro lá esse ano. O rapaz: "Você já parou seu carro aqui, né?". Aí eu falei: "Já, sim. Uma vez". Então ele disse: "Eu lembro de você, você é professora. Veio assistir um espetáculo de dança daquela vez. Você é do Rio de Janeiro". Mamãe me mandou não falar com estranhos. Eu faço tudo errado. Ainda por cima agora ele sabe meu nome, as matérias que eu leciono, que eu não gosto de balada porque eu gosto de sentar pra conversar e que eu sou de Áries.

Preparando aula

Eu preparando aula tenho sempre duas opções: 1) Dar aula teórica, em sala direto, prova teórica, fim... Sem grandes aborrecimentos. 2) Isso aqui vai dar o maior trabalho, vou ter que baixar video, montar data show, levar lá pra baixo pra ensaiar, baixar as músicas, carregar a caixa de som pra cima e pra baixo, vai dar o maior brigueiro pra trabalhar em grupo, vou ficar sem sono pra ter ideias, ficar estressada horrores e virar um corpo imprestável por algumas semanas, olheira s chanel... Vou me lascar, mas no final a gente vai se divertir muito. Adivinha qual eu escolho sempre?

Cambalhotas no culto

As pessoas estão depressivas, pensando em suicídio, tentando se livrar de vícios, sem dinheiro pra comprar medicamentos, diagnosticadas com doenças incuráveis, acidentadas, vivendo lutos irreversíveis, famintas, desempregadas há meses, solitárias e desorientadas... E tem igrejas que estão discutindo se é permitido virar cambalhota no culto.

Gambá albino

Nessa semana estava muito cansada, gripada, insuportavelmente triste e estressada na TPM. Percebi que estava no auge de ser uma carcaça imprestável, quando dirigindo freei para uma sacola plástica que voava próxima ao asfalto, achando que era um gambá albino.