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Cavalheirismo

Eu tô tão desacostumada com cavalheirismo, que esses dias um colega de trabalho abriu a porta da sala dos professores pra mim e eu fiquei parada olhando. Até que ele olhou nos meus olhos e disse "É pra vc passar". Eu disse: "Ah, tá". Acho lindo, mas sou lerda. Obrigada. Rogo-vos, continuem.

Filho

Tô precisando ter um filho. Não tem ninguém pra eu mandar na padaria pra mim.

Carpinteiro

Se Jesus andasse entre nós nos dias de hoje, eu fico pensando em como eu ia contar pra minha mãe que estava largando tudo pra seguir um carpinteiro que dizia que era filho de Deus, mas que não tinha onde repousar a cabeça. Penso nela me perguntando: "Mas ele é o q?". Eu tentaria explicar que ele era uma espécie de milagreiro e contador de histórias, que me proporcionava muita paz e com quem eu me  sentia segura. Acho que ela ia perguntar se eu estava apaixonada por ele. Talvez eu dissesse que sim, mas que ele não era casável pq já tava planejando morrer. Que cagaço, né? Largar tudo pra seguir um cara com umas ideias dessa... Cada vez admiro mais aqueles 12 corajosos, talvez eu não chegasse nem na esquina.

Kit Gay

O dia que chegar um "kit gay" na escola pública que eu trabalho, eu aviso a vcs. Até pq não é a escola que ensina alguém a ser gay, pois se fosse não haveria gay com mais de 30 anos. Há alguns anos atrás não se falava nesse assunto em lugar nenhum. Até onde eu sei o trabalho da escola, além de transmitir conhecimento é o de ensinar a tolerância e o respeito às diferenças. Existem tantos, mas tantos problemas na escola pública, não só de estrutura, mas problemas reais pelos quais nossos alunos passam. Pobreza, doenças, violência, abuso, baixa autoestima, agressividade, acidentes e exploração. E um monte de gente preocupada com um troço que nem existe.

O bom proveito da solidão

Eu nunca tinha morado sozinha. Sou a caçula de 3 irmãos, então quando eu cheguei, a casa já estava cheia. Aos dezoito anos saí de casa pra fazer trabalho voluntário e de cara já dividi um quarto com mais 7 meninas. Durante mais alguns anos segui assim. Nesse período minha mãe se mudou para um apartamento menor e desfez meu quarto. Quando fui fazer faculdade no Rio, morei  com minhas primas e depois dividi apartamento com duas amigas. Depois me casei, depois me separei. Então há três anos eu moro sozinha. Observo a rotina dos meus amigos que ainda moram com os pais ou voltaram a morar com eles. Observo os casados e os que têm filhos. Todos eles precisam dedicar tempo às pessoas, alguns porque querem e outros porque são obrigados. Por vezes invejo suas vidas, mas de um jeito bom. Mas também aprendi a valorizar a solidão. A solidão não precisa ser triste, ela pode ser muito proveitosa. Do silêncio ao som de uma música no volume máximo, a liberdade de fazer o que quer. Tempo sobrando, ...

O luto

Dia desses conversava com um amigo que perdeu uma pessoa da família sobre o luto. O luto pertence somente a nós mesmos. Os outros podem até tentar dimensionar nossa dor, mas nunca conseguem. A minha avó faleceu às vésperas do Natal. Tínhamos acabado de ir ao cartório emitir sua certidão de óbito, quando lembramos que não tínhamos uma roupa para enterrá-la. Fomos a uma loja na esperança de encontr ar algo digno dela. A roupa estava escolhida e quando fui efetuar o pagamento, uma música natalina era a trilha sonora. Foi quando a atendente me perguntou se aquela roupa era pra presente. Não era, aquilo era qualquer coisa, menos um presente. Foi quando eu pensei que se eu pudesse teria parado o Natal por causa do meu luto. "Vivenciem meu luto comigo!", eu queria gritar, "Alguém pára essa droga de música!". Mas não fiz isso, nem era possível exigir que o mundo ao redor sentisse a minha dor, porque o luto é uma dor só de quem sente. Não se transmite luto, não se divide l...

Não fale com estranhos

Eu preciso conversar menos por aí. Parei o carro no centro de Curitiba em um estacionamento perto do teatro Guaíra. Foi a segunda vez que deixei meu carro lá esse ano. O rapaz: "Você já parou seu carro aqui, né?". Aí eu falei: "Já, sim. Uma vez". Então ele disse: "Eu lembro de você, você é professora. Veio assistir um espetáculo de dança daquela vez. Você é do Rio de Janeiro". Mamãe me mandou não falar com estranhos. Eu faço tudo errado. Ainda por cima agora ele sabe meu nome, as matérias que eu leciono, que eu não gosto de balada porque eu gosto de sentar pra conversar e que eu sou de Áries.